Dou pra qualquer homem que saiba usar a crase

HIPÉRBOLE

13434967_1018670454849547_2617379459363481469_n

Meu nome é P. e tenho 39 anos. Gostaria de estar casada, ter ao menos dois filhos e uma vida pacata. Mas nasci com um vício: tesão em homem que sabe usar a língua.
A Língua Portuguesa. Desde pequena, na escola, eu deixava de lado os amigos bonitos e me esfregava nos colegas cheios de espinhas que sabiam conjugar corretamente os verbos irregulares. Meu primeiro orgasmo foi quando C., no primeiro ano do ensino médio, naquela época segundo grau, conjugou corretamente o mais-que-perfeito do verbo ser. Impecável. Irresistível.

O problema é que nunca coincidia de um rapaz que sabia Português gostar de mim. Acabei namorando F. por muito tempo. Ele ao menos falava direito. Mas, na hora de escrever, sempre esquecia o acento diferencial do têm e do vêm no plural. Isso me corroía por dentro. Acabei traindo F. que era um deus grego, com o magrelo e vesgo G…

Ver o post original 239 mais palavras

Escrever e deixar que te leiam

HIPÉRBOLE

estria

Escrever e deixar que te leiam;
É um ato de amor
Ou de no mínimo carinho
É usar um ”pode lê” como um confio em você
É mostrar-se à vontade
É sentir-se de casa
Na ”casa” do outro

Escrever e deixar que pessoas próximas te leiam;
É como usar o banheiro com a porta aberta
É como tirar a roupa em plena luz do dia

Permitir que saibam tanto sobre o quê
E quem você é
Não é uma tarefa fácil
Além do que; há um risco
Um grande risco de rejeição quando se é
Inteiramente verdadeiro e desnudo
Há estrias, e avarias
Que nem todo mundo vai fingir que não vê
Ou que não sente

Escrever e deixar que te leiam;
É como ter visitantes na sua alma
Na sua mente
Alguém passeando
E observando tudo de muito perto
Um turista
Numa viagem dramática
Num tour que só você…

Ver o post original 3 mais palavras

O Berloque Prateado – Cap 1

Morgan descobriu, a duras penas, que precisava aprender a não dormir. Pelo menos não sofreria de insônia.

Desviou o olhar do relógio, sabia que estava atrasada. Não que se importasse, ao contrário, dos poucos prazeres que lhe restaram, não participar das refeições sociais era um deles e, como o próprio relógio acusava, já passava das oito horas quando finalmente desistiu de dormir.

As velas do quarto estavam acesas, pequenos demônios dançando sob luzes douradas, relembrando a quem ela deveria agradecer a gentileza inoportuna; mas ele estava ocupado, recebendo e divertindo os convidados durante aquela reunião insípida, que servia apenas para atribular os empregados e fazer dela uma presença necessária. Uma obrigação a qual ela raramente atendia.

Francamente, qual a parte de “não entre em meu quarto” ele ainda não entendeu? Ou nunca ouviu a expressão “invasão de privacidade” ou ignorava seu significado com a descarada intenção de contrariá-la. Admitiu que não colaborava muito para manter o desinteresse de Rúben em sua vida, pois sua insubordinação natural era um forte estímulo para um homem de perfil controlador e egoísta, entretanto, ela não era obrigada a mantê-lo feliz.

Sentiu a velha nostalgia tomando conta do seu coração novamente e observou cada detalhe do requintado aposento. Era clássico e prático, porém elegante. Apresentava uma imensa janela que, em noites escuras descortinava uma bela visão do céu e em estações mais amenas proporcionava um panorama espetacular do jardim.

 

Continua no Blog DarkMoon

Inconsciência

São os sentimentos inesperados que assombram, como se soubessem de algo que permanece oculto, ignorante à razão, mas determinam seu momento explicitamente.

São inexplicáveis em sua natureza, consomem vorazmente e acovardam a lógica.

Intercalados entre a paz hipócrita e a lucidez instintiva de um coração abrandado pelo tempo.

A chama inclemente transforma-se em cólera, queima os sentidos e reclama sua existência e relevância.

Talvez seja a inconsciência sobre si mesmo que, uma vez desperta, reconhece a sincronia constantemente ignorada.

A alma pede por uma alimento que o corpo não assimila sua digestão, assim como a razão é estraçalhada  pela falta de concepção.

A imaginação é assolada por uma ideia inadmissível, porém real, latente.

Apenas você a sente e é devorado por ela; transforma a calmaria superficial num inferno lúcido do qual é impossível escapar.

São os pensamentos omissos, as opiniões enclausuradas, a rebeldia contida, o desejo acorrentado; todos excelentes combustíveis para acelerar a audácia e transformar uma pequena coragem em um ato consumado.

Um átimo, é o que falta para torná-la real…

A música atormenta sadicamente, doentia; o sangue ferve e a visão se turva; quantas possibilidade se fizer, quantas frustrações se desistir?

O caráter é questionado, a religião é esquecida, os conceitos derrubados.

Minutos transformam-se em horas, a espera, eterna.

Nesse momento você implora por algo superior e o silêncio é devastador.

É imprudente pensar sobre o delírio, certamente achará sua causa … ou a resposta para a súplica.

A reflexão retrocede frente à verdade, pois não encontrará clemência nem compaixão por sua busca petulante; será explorada, exposta e sua pureza artificial eliminada!

O ébrio verte a libido, seduz o tormento e docemente adormece o demônio, prometendo uma paz inalcançável, ainda que real.

DarkMoon

Silêncio

Um momento irritante. Doloroso inicialmente. Libertador no final.

Não há ruídos. Apenas a gritante presença do vazio.

Uma circunstância que oferece uma única opção ao sujeito: Sentir!

Sinta suas falhas. Assuma suas fraquezas. Chore no final.

Mas não perturbe o silêncio. Não é autocomiseração. É desabafo!

Sinta a insônia. Converse com as frustrações. Reveja as convicções.

Mas não perturbe o silêncio.  Isso não melancolia. É introspecção!

Sinta o hoje. Abandone o passado. Esqueça o amanhã.

Mas não perturbe o silêncio. Isso não é sobreviver. É autopreservação!

Sinta os amores vividos. Lamente os perdidos. Decepcione-se com a impulsividade.

Mas não perturbe o silêncio. Isso não é incompetência. É transparência!

Sinta a complexidade. Explore a sanidade. Desampare a intelectualidade.

Mas não perturbe o silêncio. Isso não é imaturidade. É temeridade!

Sinta a beleza imperfeita. Conceba a assimetria. Devore as paixões.

Mas não perturbe o silêncio. Isso não é arrogância. É autenticidade!

Finalmente,

Saboreie as tragédias. Satirize a felicidade. Viva a fantasia. Oblitere a realidade.

Isso não é alienação. É contradição!

Mas não perturbe o silêncio.

DarkMoon

Ruínas

Todos estão caindo e decaindo. As aflições da alma nos fazem sucumbir às tentações que tem suas origens na dor e na repreensão; tornam-se pensamentos fixos e são o combustível para as atitudes mais impulsivas e inconsequentes da vida.

O intelecto se renova a cada minuto mas a alma permanece imutável. Não importam quantas vezes, nem onde nem as circunstâncias do seu renascimento; ela trará consigo a bagagem de suas viagens anteriores;

O sofrimento prevalece e no seu seio gera seus filhos; sentimentos obscuros e inadmissíveis em nossa vida medíocre, porquê queremos ser bons e aceitos.

Engana-se aquele que acredita no perdão, no amor incondicional e na bondade altruísta; conceitos decadentes, elaborados por uma sociedade hipócrita, cheia de tabus e presa por amarras de aço.

 

DarkMoon

A claustrofobia em negro e vermelho

Na claustrofóbica noite a lua eleva-se prateada.

As nuvens dançam ao seu redor, coroando-a, cintilando seu magnetismo e atormentando cada milímetro das minas veias enegrecidas pelo e seus males.

Poetas recitam versos românticos e apaixonados,  compositores fazem canções enaltecendo sua beleza e graça, artistas pincelam sua nobreza e soberania. Por mim é condenada a reinar solitária, esquecida e atemporal, desprovida de luz, consumida por seu próprio reflexo.

A tempestade queima a minha alma, reacendendo antigas memórias, e meu corpo inanimado envenena-se com paixões cruéis e violentas.

Você não está aqui, a única que poderia saciar minha sede, brindando-me com seu sangue turbulento, vivo, quente. Mas seus olhos vermelhos, com luxúria contida e uma discrição cínica que sempre ousaram manter, ignoram minhas súplicas. Como uma reza voluptuosa, quase sacrossanta, implorando por saciedade. Castigando justamente aquele que a presenteou com a eternidade e seus ímpios prazeres.

A fome por retaliação é visceral e excita meu ego há muito adormecido. Serei seu eterno amante, pois, a mim pertencem o amor e a vingança e a farei conhecê-los  em sua plenitude, proporcionando todas as sensações que, num momento de loucura, atrevi-me a poupá-la. Pagaremos juntos o preço por nossos pecados; o meu por ceder ao impulso, o seu por negar-se a vivê-los.

O silêncio será o nosso cárcere, intenso e duradouro, condenando ambos ao desatino. Duas psiques transtornadas, culpadas, mortalmente sedentas por emoções extintas. Nesse mundo, racional e febril, serei o único a saborear nossos delitos e deles extrairei o absoluto prazer da verdade.

DarkMoon